ClariVivências – da falação

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Minha filha fala. As palavras ainda saem meio moles, moldáveis talvez, da sua boca de coração. Seria “colação”, na verdade. Alguns “rs” são de uma solidez nada palatável para uma pessoa de dois anos e sete meses. Tudo bem ela não falar corretamente. E não, eu não a corrijo. Por que? Ora, porque pra mim, mãe dela, é absolutamente fofo e irresistível aquela fala dengosa e intencionalmente infantilizada.

“Mas assim você não contribui para o desenvolvimento da sua filha.”, pode me dizer alguém numa apropriação obtusa do discurso pedagógico. Contribuo sim, ela aprende a ser gente, aprende sobre ser apreciada de um jeito pela mãe e de outro por outras pessoas. Aprende que não há um modo só de ser e estar, e que tudo bem se forem contraditórios, em algum lugar tem de ser. Aprende que em casa é de um jeito, mas que na creche é de outro, com os avós é de outro (mesmo!). Cabem já obrigações demais à mãe pra me impingir mais essa.

O que deixo claro pra ela é que essa sedução não vale em todos os momentos nem é legítima para todos os propósitos. Tem hora, lugar e endereço. Mesmo tendo tudo isso, nem sempre será acolhida. Procuro viver pra ela minhas verdades de gente. Reparo, feliz e grata nas escolhas de identidade com as quais ela vai tecendo seu eu.

Batizei-a Clacla, o pai sempre a chamou de Clarice, na creche ela aprendeu o nome completo. Se dizem que ela é linda podem receber de volta um sorriso ou a resposta “Linda não, sou Calice Babosa de Souza.”, depende do humor da hora. O fato é que ela escolheu esse nome para dizer quem é quando não quer ser nada além de si. Me mata de amor!

As crianças tem esse brilho de coisa recém adquirida nas palavras que lhes saem da boca estreante. No frio da madrugada a cria pula pra minha cama. Fico esperando, embora não curta muito os chutes e puxões de cabelo que sempre me acordam em estado de alerta, tem o quentinho cheiroso da filhote. O inebriante cheiro da cabeça de filho. A certa altura ela pede pra fazer xixi, era madrugada. Sentada, cabeça baixa, cochilando, ela manda: “Mãe, o vento tá muito forte hoje, tá forte demais.”

Que susto eu levo, tem uma pessoa morando comigo, acabou de sair das fraldas, literalmente, e anda por aí reparando no vento lá fora, emitindo impressões e julgamentos sobre isso. Respondo: “Realmente, tá demais esse vento.” Vestindo a calça ela avisa: “Não pode sair sem casaquinho hoje, tá mãe?” Despertei. Voltei pra cama com ela que deitou, me abraçou o pescoço e adormeceu. Pra não afogar de amor pedi sabedoria, serenidade e humildade. Afinal, essa tal de maternidade é, pra vida toda, o exercício de estar no limite dos limites que outro constrói a partir dos exemplos que elege pra si como bons.

Tanto a dizer e tão pouco tempo, ela cresce mais rápido que eu elaboro.

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