ClariVivências – Chegando aos três

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O filho sai de dentro do corpo, sai do peito, sai do colo, sai da cama, sai de perto, sai por aí e aprende que sem mãe pode ser mais ou melhor aqui e ali, e sai. Sai de si. Ele tem que sair, nós precisamos seguir. Ora juntos, ora separados, mas pra sempre conectados por essa coisa linda que é fazer história na carne uns dos outros. Não é escolha, é humanidade.

A teoria diz que deixe ir, mas a sedução no olhar apaixonado de ambos pede para que fiquem um momento mais, só mais o tempo de eu tentar me acostumar à ideia. Filho da gente tem tudo de mais lindo e estar próximo deles dá em 3D o filme do que sempre buscamos, encontrado. Mesmo que não se saiba, todo mundo sente, mesmo que todo o resto pareça um atropelo desastrado.

E nessa hora o desejo e o real estão tão próximos que é possível sentir a trepidação do quase encontro. Faz ventania. Nesses momentos tem que se pegar de empréstimo espaço de outras almas pra caber o espanto de se deparar com o olhar intencionado deles. Que já falam, andam, correm, argumentam, contam histórias e fazem perguntas. Produzidas pela mente deles, espontaneamente. Eles ouvem o que a gente diz, entendem, elaboram com a exclusiva singularidade de cada humano, e produzem daí uma pergunta.

Precisa um querer pra criança andar com os adultos dela, especialmente na fragilidade de depender deles pra dar nome às coisas do mundo. Fundamental que ela goste de estar com eles, e eles com elas. Tem aquelas horas de saco cheio pra todo mundo, normal. Mas tem momentos que são perfeitos pra compartilhar. Eu gosto do café da tarde. Pode não ser muito comercial, mas abre alas pro crepúsculo, a hora crítica para a qual um dos meus amigos tem a descrição perfeita “nunca tem luz suficiente”. Importante compartilhar também as tarefas domésticas.

Esse fim de semana minha filha recebeu os  avós oferecendo seu banheiro para o banho deles e explicando onde se toma banho, como os mecanismos do banheiro operam. Ela gosta de conhecer a casa e saber abrir e fechar portas e gavetas. Descasca alho como ninguém. Seca a louça que vou lavando. Bota suas roupas sujas no cesto, cata os brinquedos. Sempre prontamente? Não, mas como toda gente, ela precisa estar para a dinâmica da vida, por isso é convocada a fazer sua parte. Mesmo quando começa de má vontade, sempre termina orgulhosa de pertencer. Isso nos une.

 Acompanhar o desenvolvimento de uma criança é dar a cara ao tapa das epifanias compulsórias que vem da gente repassar a história do mundo pra contar pra eles quem são, ou quem a gente espera que eles sejam. Tem que ser forte. Quando minha filha diz de suas preferências de suco ou conta histórias pra si fico perplexa diante da inconsequência poética que é colocar uma pessoa humana no mundo, e amo, apenas.

Elis Barbosa

 

One thought on “ClariVivências

  1. Acho que você passa uma incrível perplexidade diante do ofício/ missão/escolha de ser mãe.

    Não é um aceitar passivamente, ” já que essa é a função primordial da mulher”, ou “para perpetuar a espécie” ou ainda ‘estai incompleta se não o for”…

    Mas me parece um eterno, há quase três anos, contentamento e deslumbramento. O deslumbramento de descobrir “quem é essa pessoinha para a qual eu escolhi parir, o mais natural possível, à qual eu ensino, mas que apreende à sua própria maneira? Que saiu de mim, mas não é meu clone?”

    E o contentamento em acompanhar essa plantinha brotar e produzir suas explicações para o mundo, para a vida.

    Concluo com algo profundo, a única expressão que define todo esse processo: “Ai, ai!!!”

    Beijos! Para as duas!

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