Decola

Era uma vez, o maior amor do mundo. Seguindo seguro, sadio e sereno, sem tanto episódio triste pra contar. A vida, toda em dupla, e o cotidiano atribulado e exauriente para trás.

Daí surgiu uma terceira pessoa. Era uma vez o maior amor do mundo. O segundo maior amor do mundo? Não, o maior amor do mundo. E o outro? Segue sendo.

O segundo puerpério não vem pra avisar, ele vem pra revelar, teje pronta. Tem as tristezas “fisiológicas” que você tentou desviar, porque, né?, você já passou por isso antes. Mas para as coisas da maternidade não se reutiliza, não há pregresso, cada ser que chega é um, e precisa ser investido do início de tudo, de antes do amor. Quando o Joaquim chegou, por um parto domiciliar lindo, demorei pelo menos vinte e quatro horas pra me apropriar dele como o recém nascido que era. Ele estava lá na cama dormindo e eu deixando, como se já pudesse me chamar, como se já soubesse de tudo na casa porque a irmã sabia.

Ao ouvir esse meu pensamento o puerpério entrou, pé na porta do peito, uma angústia afiada. Me dei conta que o bebê não estava mamando. As mães alucinam, é preciso. Algo parecia muitíssimo errado, eu tinha tido um bebê, mas ele não estava comigo. Cadê meu bebê? Meus peitos cheios, um miúdo deitado cheio de cobertas na cama. E o corpo dele fazendo falta no meu, de repente era urgente cheirá-lo, apertá-lo (suavemente), estar com ele, conhecê-lo do lado de fora, me apresentar. A gente só tinha marcado pra mais tarde, mas faltava muito ainda para o que era preciso.

E então, fiz o que era preciso e fomos felizes para sempre. Não.

Algo me impedia de estar com meu bebê. Não me sentia a vontade. Mas o quê? Pedi a todos que estavam na casa que saíssem, havia algo sendo censurado dentro de mim, uma resposta envergonhada, que não admitia público. A casa vazia, sentei ao lado daquele estranho-íntimo, recém chegado, e dei um cheiro bem longo nele, ainda havia vernix ali. Ele suspirou. Que susto, uma pessoa muito pequena, nova, desconhecida tinha nascido de mim. Outra. A segunda pessoa.

Foi quando me dei conta que ainda não tinha espaço pro meu filho ser O filho, encoberto pela sombra de Clarice. Outro susto. O medo que deu de amar outro filho e isso não ser bem vindo pela primogênita. Ela saindo da fase  de bebê, no auge dos seus quatro anos. Experimentando voos, testando amar de mais longe. Muito confuso tudo isso, para todos. Muito trabalho de amor. Naquele momento parecia claro ser necessário transcender, ser preciso superar, desdobrar, multiplicar pra não dividir. Tomei meu bebê no colo, cantei pra ele, conversamos, tomamos sol, parei pra reparar nos detalhes daquele corpo peludinho e macio. Meu menino, meu filhote, meu neném. Mamou. Pela primeira vez amamentei Joca e aquele foi um encontro inaugural. Não sem lágrimas.

Eu tinha, a partir de então, dois filhos, duas pessoas distintas, em momentos de vida distintos, ambos precisando visceralmente de mim, cada qual conforme seu momento e sua pessoa. Me dava conta disso naquela manhã clara de azul. Mas havia uma trava, um pudor em me derreter pelo bebê, o que seria?

E estreamos na estrada da reconstrução da nossa família. Nunca do zero. Sempre ganhando algo, nunca perdendo tudo. Importante tentar manter o equilíbrio entre o perde e ganha, não existe um sem o outro. Como amar depois disso? Nos encontramos no processo de compreender, assimilar e viver novas dinâmicas nessa configuração de três, ou dois pra um, ou um a um intercalado, ou… vamos vivendo e contando do caminho por aqui, devagar, como alinhavamos os amores. Criar gente, multiplicar para compartilhar precisa de tempo, e esse também é tema para manga. Adiante com os capítulos.

One thought on “decola

  1. Vc me emociona!
    A cada releitura no seu texto, tão cheio de generosidade, encontro um pedaço da maternidade que eu não entendia em mim… Mesmo sendo mãe de um!
    Obrigada! Sou sua fã! 😘

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