Dois pra lá, dois pra cá.

Talvez seja a correria que a vida virou. Antes era aquela corrida organizada, num tempo bonito, trote tranquilo. Pelo menos no ritmo. Aí veio o segundo filho, e a corrida virou um descabelamento ladeira abaixo, tudo mudou, tudo, e é tanta riqueza de vida que o tempo saiu, sem aguentar tanto descompasso.

Sem tempo pra nada, mas vendo minutos se transformarem em horas madrugada a dentro, se perde a boa vontade para algumas coisas, e o que era conceitual vira prática. Meu caçula, quatro meses, pra quê calçar? Pra quê vestir mais que aquele body básico?  Alternativa, temos?

Não é ser alternativo, é se ver sem alternativa. Na minha experiência, a primeira maternidade foi uma onda que me engoliu, a segunda quebrou em cima, estou procurando o sutiã de amamentação até agora. Perdi. Tem dias que vou sem nada. Cansada.

Então aparece o calçado. Pequenininho, fofo, e você saindo com a criança. Já perguntaram se ele tem shorts, se ele tem calçado. A pressão social  sobre as mães é assim, imensa e pesada, de deixar qualquer Amélia azeda. Por mim não vestia, nem calçava nada, mas uma hora não vai ter jeito, vai ter que entrar no esquema. E coloco sandália e shorts no menininho.

Estrear é para todos, a cada dia. Mas testemunhar as primeiras vezes dessa gente que nasceu de dentro de mim um dia, é como abrir portais, janela de avião, porta de carro em movimento, emoção demais. Todavia, não se iludam, não vou desfiar aqui ternura sem baba, ou delícias sem fraldas cagadas, tem tudo isso. E justamente por ter essa abrangência na gente é que alarga os horizontes. O muleque esperneou quando meti as sandálias pé adentro. Shorts, camiseta. Parece um homenzinho ouço todos lá fora suspirando aliviados.

Muitos elogios, agora está certo. Sigo incomodada, pergunto pro lado: “boto a sandália no menino, pai?”. Tic-tac, tic-tac, tic-tac. Pra quê colocar isso nele? É dura, e ele está esperneando. Calor, bebê de quatro meses, bota isso nele não, e sumiram as sandálias. Também acho.

Sempre achei que nunca repetiria por convenção social ou ensinaria a conveniência. Mas também nunca tinha pensado na prática de ser mãe. Logo se vê quão amadora uma pessoa é na vida se ela usa a palavra sempre ou nunca. Quando usa as duas, dá até uma agudeza na empatia. É isso o que temos pra hoje, um bocado de processo civilizatório, um bebê aliviado de se achar novamente descalço (como sempre foi), uma mãe na dividida, e um pai que, cadê? Já foi, levou menino de shorts, mas sem camisa e sem sandália, porque o calor, esse sim está demais.

Elis Barbosa

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