É minha sim.

20160329_081241Faz um tempo postei uma imagem da minha pequena em rede social. A legenda: É minha!, e logo li admoestações amorosas dizendo que não é minha, não. Os filhos a gente cria pro mundo, que eu não conservasse a doce ilusão de que tinha posse sobre ela. Verdade, verdadeira.

Obrigada meus amigos. A posse é um modo raso de amar, mais seguro, amplamente sabido e praticado. Um modo que faz determinadas marcas, cabe saber se essa é a natureza do amor que queremos ensinar àqueles que nos ensinam todo dia, quase em tempo real, a lei do retorno.

E se a gente atravessar a ponte? Não ficar na posse, passar ao senso de pertencimento? O que seria isso? Mais um desdobramento do amor prisma que ilumina mais e melhor se lançarmos sobre ele muita luz.

Tem uma menina morando na minha casa, primeiro ela morou no meu corpo, depois foi entrando num espaço amoroso mais visceral, se fez nascida e pari a maternidade sobre a qual me debruço para construir, o mais conscientemente possível, a parte que me cabe na nossa trajetória. Desde então eu cuido dela, conheço cada pedacinho do corpo que lavo, alimento, visto, vasculho. Pressinto sintomas, registro caretas. Conheço quando o sono vem, e  da luta dela contra ele, seu arqui-inimigo. Resisto cortar-lhe as unhas. Cada tom de voz eu sei de onde vem. É minha sim.

Acontece que nos últimos dias tenho sido constantemente surpreendida por falas e pensamentos nascidos de uma boca que ainda faz intervalos pra ensaiar a pronúncia de algumas palavras. Algumas ainda saem enroladas em sílabas mais fáceis de dizer, mas é tudo original, é tudo dela. A menina que mora comigo começa a fazer silêncios inescrutáveis, concentrada na brincadeira com as bonecas. Por alguma razão me senti sendo separada de mais um pedaço dela. Não nos tiram a ilusão da onipotência materna de uma vez, ela vai acontecendo aos intervalos, como nas contrações, para que se possa respirar toda a coragem do mundo, e seguir acompanhando a evolução da natureza. Ela não é minha posse, nunca foi. Assim que começou a falar, tratei de ensinar aquela brincadeira que faz todo mundo babar, perguntava: Você é de quem? Eu mesma devolvia: Da mamãe. Mas não colou, assim que entendei (conjugação verbal do Português dela!) a brincadeira respondeu: “De Calitche”.

Tentei explicar que não era assim, que ela dissesse que era de mamãe, mas ela ria e repetia: “É de Calitche”. Ela não é minha desse jeito.

Deixa eu dizer de como a imagem gerou a legenda. Ela tem meus olhos, o que me faz atribuir aos meus olhos adjetivos que antes não me pertenciam. Fico maravilhada conosco. Ela franze o nariz exatamente como eu quando sorri. Vi numa outra foto em que ríamos juntas, naturalmente semelhantes. Ela faz eco das nossas brigas com as bonecas e vai adquirindo trejeitos misturados das gentes que ela observa e de quem se agrada. Os meus estão lá, marcantes. Ela tem minha teimosia em experimentar por si, minha insistência em querer explicar, e a apreciação da liberdade. São as marcas que ela herda para, sobre elas, se fazer a pessoa que puder ser.

A menina que mora comigo é minha, sim, e eu sou dela, a gente se pertence, se assemelha, se inspira, se reinventa. Esse laço dói, porque quando a gente pertence a alguém sente mais uma falta, como no parto é uma dor que tem propósito, deixa a gente pronto pra receber o outro cheio de amor, humilde. Como a dor do parto, o partir dos filhos parece insuportável, mas é outro mito. Vale a pena olhar para as despedidas com menos disfarces. Acreditar que possuo o outro e que existem obrigações afetivas de parte a parte é cultivar uma mentira que vai doer tão mais quando desvelada no real dos conflitos que nos afastam! Perda do tempo de um chá ou de uma brincadeira.

Depois que entramos na vida aprendemos pela experiência que as coisas vem e vão, quase nunca nos conformamos com isso, somos ensinados que a permanência é que boa. Ok, mas ela não existe. Apenas. Então, a menina que mora comigo, veio e vai, mas voltará sempre e pra sempre porque ela é minha de muitos jeitos diferentes. E eu, sou dela irremediavelmente.

– Elis Barbosa

4 thoughts on “É minha sim.

  1. Que texto maravilhoso!! É exatamente assim que me sinto e que vejo, mães amorosas e inteligentes o bastante para pensar que “eles” são só “nossos”. São vidas pensantes e que irão mudar também o mundo de outros!!

    1. Nossos e do mundo. Essa vida anda mais pra “e” inclusivo que pra “ou”, aquele que fecha possibilidades, né?!
      Obrigada por compartilhar.

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