Limite, Separação e Outras Barras

Aqui em casa as crianças são convocadas a participar da vida, do cotidiano, da rotina, da intimidade com tudo que tem que ser feito. Cada um tem coisas próprias pra cuidar, os outros também tem as suas, e tem a vida em comum, da casa. Minha filha tem três anos, e meu filho, ainda dentro de mim, já ouve essa história. Faço isso de caso pensado, com objetivo nomeado e específico: que eles desenvolvam autonomia de existir, que se engajem em saber sobre como funciona a casa (como as portas dos armários podem te machucar, o que fica na geladeira e o que não), e como todos podem ser atendidos se cooperarem. E nem se trata de barganhar, impor, ensinar sobre essa cooperação, o mínimo de fora pra dentro, de blá-blá-blá parental e mais exemplo repetido.

AVISO ANTES DE CONTINUAR

[Atenção: sem julgamento! Cada cuidador vai encontrar na cultura tradicional (os conselhos da vovó), na cultura acadêmica (os artigos especializados) ou naquela que for a mais bem cotada das redes sociais, uma ferramenta que funcione no manejar das suas crianças. Essa que aqui vos fala é uma experiência, um olhar, um modo de ver o mundo, apenas um. E que nem sempre dá “certo”.]

CONTINUA – Se você arrumar seu quarto vai comer sobremesa (ou a negativa). Aqui em casa nada acontece na vida da pessoa se a ela foi designada uma tarefa ainda não cumprida, tipo catar os brinquedos. Não tem castigo nem recompensa pra arrumar o próprio quarto, é inescapável, tem que rolar. Mas deixo que as consequências sobrevenham àquilo, sem temer. O brinquedo que estiver no chão quando ele for varrido, vai pro lixo. E claro, tem dia que você dá mil chances pra criança fazer enquanto é tempo, mas tem dia que não. Sobre isso, não proteja seu filho da inconstância da vida, é importante ele ir se dando conta de que o vento não sopra apenas a seu favor, tem dia que “dá ruim”, melhor se puder ser contigo, que cuida. Independente de qualquer coisa, não isente a criança de viver as emoções que vem das suas escolhas, sejam elas prazerosas ou desconfortáveis. Não seria correto.

Se ela não cata, o brinquedo deve ir pro lixo. Se não coloca a roupa suja no lugar certo não tem como ver desenho ou lhe ser contada uma história, porque essas coisas são da ordem dos afazeres do dia. Claro que a primeira coisa que ofereço é minha participação voluntária no cumprimento da tarefa, caso ela queira. E quase sempre funciona, ela aceita minha ajuda e juntas a gente vai fazendo. Preciso ensinar a ela a cooperação no ato. Ela entende cada vez melhor o que a gente quer dizer com família.

Esse caminho acidentado é bem coisa da vida, que a gente suaviza na medida em que a pessoa não pode se “defender”, mas é saudável ir permitindo à criança, gradativamente, o acesso à madrasta presente nos contos de fadas que atravessam tantas gerações e chegam até nós. Eles não são recontados até hoje por nada, estão na categoria das “coisas primitivas que todos compartilhamos” e por isso nos é comum. Tem um livro maravilhoso sobre isso que serve tanto a profissionais psi quanto a leigos, chama Fadas no Divã, vale a pena.

A mãe perfeita, aquela que deseja mais que tudo ter bebê, que é só bondade e nos completa, precisa dar lugar à madrasta que diz “não”, que prefere voltar ao seu trabalho anterior à ficar por conta dos trabalhos domésticos, que se aborrece ou enternece com outros afetos que não o de sua criança, que nem sempre está lá para nos salvar, a que falta. Se não for pela falta, não vai, o processo não anda, as etapas não são experimentadas, a vida não é vivida e ao pequeno sujeito, como no filme Procurando Nemo, nada acontece. Mas que existência é essa onde nada acontece?! Para encontrarmos é preciso que tenhamos nos separado. Aos poucos, primeiro do corpo da mãe, depois do peito dela, nunca do colo, mas de todas aquelas horas só pra si.

Minha pequena, ainda com seu aninho e meio, na creche desde um ano, precisava, de vez em quando, confirmar se eu estaria mesmo lá, se ela me mobilizava de alguma forma, se eu me importava, e chorava quando eu a deixava. Pra esses momentos apresentei pra ela o gesto de fazer um círculo com o dedinho indicador, completando a fala: “tudo que vai, volta.” Nossa assinatura daquele compromisso, eu sempre voltaria, eu sempre volto. Mas pra isso eu tenho que ir.

– Elis Barbosa

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