Necessário

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Quem sugeriu que fosse feito o teste de gravidez foi o pai da minha filha. De minha parte estava acometida por alguma doença grave que me alterava as emoções, e enjoava do cigarro. Aquela sugestão me encheu de fantasias, achava graça da possibilidade que, parecendo remota, não assustava.

O mal estar não cedia, médico só em último caso, o teste estava ali, acordei numa madrugada angustiada e decidi encarar. Quando a segunda listra começou a colorir foi o choque quem passou a me encarar. Entreguei o resultado ao já futuro papai, ele olhou o teste com um sorriso inadjetivável e disse: você está grávida. A tempestade caiu, não surgiu pra mim sol resplandecente com o positivo, mas uma chuva forte, tensa, densa e carregada de vida pra fortalecer a fé que teria de nascer em mim pra frutificar em maternidade. Ventos de tormenta, deixando claras as mudanças profundas nessa realidade que estreava.

Eu era toda agitação, ele se mantinha sereno e feliz, já sabia da vinda do filho, esperou quando eu mesma ainda não esperava, foi o chão firme onde meu passo incerto pôde ganhar mais tempo pra se adaptar ao peso do corpo. Dedicou-se integralmente ao bem-estar da família e fechou juntinho quando o parto domiciliar passou a ser nossa escolha. Decidimos também que não teríamos mais ninguém conosco no momento do parto e no pós-parto imediato. Só isso eu faria diferente, apesar de todo o planejamento precisávamos de alguém que providenciasse as refeições e mantivesse a casa mais ou menos organizada.

Tivemos anjos preciosos que nos socorreram e ampararam, o casal sozinho fica muito sacrificado tendo de cuidar da produção de tudo. Especialmente depois de passar pelo parto! No nosso caso foram dezesseis horas acordados, ele na minha memória testemunhou cada progresso do milagre que nos agraciava. Respirava pra eu poder respirar, as mãos estranguladas, acreditou enquanto não via e quando viu me agradeceu, admirou e amou, reconheceu o vínculo que nos unia em outras dimensões, tudo isso num olhar. Enquanto eu me recompunha do parto ele segurava Clarice com toda a propriedade do novo papel de que se incumbira e brilhava nele.

O apoio à gestante é absolutamente fundamental, deve chegar a ela de todos os lados, da rua (saúde, direitos, trabalho) e de casa. Gestar outro ser humano é uma tarefa complexa, para dizer o mínimo, demandando portanto mais dessa mulher  e de quem a acompanha. Mais horas de sono, mais paciência, mais refrigeração nos ambientes, mais banheiros, mais paciência, mais opções de comida, mais horas de conversa, mais elogios, mais carinho, mais distâncias, mais paciência. A gestante não é louca, desequilibrada ou mimada, mas um ser humano experimentando transições profundas no corpo, revendo seu entendimento do mundo, vivendo conflitos internos, além de relacionamentos com outros seres humanos cheios de demandas próprias. É muita coisa. Paciência e respeito. Não se encontra pra vender, mas vale muito a pena criar em casa, especialmente para essas situações de amor extremo.

Fotografia de Adriana Medeiros.

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