Passa, tempo. Pode passar.

A maternidade é um mar de novidades e revivências. E, já que estamos aqui, que aprendamos a lição pra repetirmos cada vez mais conscientes. Neste universo paralelo se inaugura no horizonte uma saudade nova, diferente da saudade de antes.

Antes, toda saudade trazia gritando a falta de algo que era preciso retornar. A lembrança, toda ornada mas imagens que a memória guarda especialmente pra esses momentos. E aquele aperto no peito, aquela dor fininha e pesada  ao mesmo tempo. Antes só tinha essa natureza de saudade, doída.

Hoje, tem uma saudade mais leve, desapegada, que olha as fotos, ou separa as roupinhas que não cabem mais, com uma ternura sem fundo, uma gratidão solar por tanto amor concretizado, e uma alegria discreta por já estar no passado.

A maternidade, como toda experiência limite, pode ser um ponto interessante de partida para mudanças. Esse retorno à lugares mais primitivos trazem para todas as horas de todos os dias, imprevistos da ordem da natureza (aquela golfada que azeda você e ele ao mesmo tempo, na hora de sair), e portanto instabilidade. Vivemos em estado hipervigil, responsáveis não pela sobrevivência, mas pelo bem estar de outra pessoa, essa em estado de vulnerabilidade.

Não ter saudade disso é absolutamente aceitável, senão esperado, porque no modo como está distribuído hoje, é exaustivo além do saudável. E a sociedade, essa não facilita em nada o job das mina. Fato. Mas aqui nem estou falando da carga indevida que as mulheres carregam, não. Falo daquela que é da experimentação da maternidade.

Você não devia reclamar tanto. Tem mulheres em condições muito piores que a sua. Mas é por elas também que eu reclamo. Re Clamo. Clamo repetidamente, “assim não está bom pra mim e tem que ser bom pra todo mundo”. Isso ainda causa surpresa, a priori o bom da mãe não vem no pacote, porque está no pacote da maternidade a renúncia da mulher. Pára.

Calma. Quase nunca é por mal que essas reações aparecem, é cultural. Sabe a nova gramática, então, tem gente que demora a se adaptar às mudanças que já estão no papel, de tão inadiáveis. Perseverando no amor e na responsabilidade as coisas vão se ajeitando, todo mundo equalizado na humanidade.

Não tenho saudade de trocar fraldas, não tenho saudade da angústia com as febres, não tenho saudade das roupas manchadas. Não tenho saudade da sensação de que tudo segue, menos eu, aqui com esse piercing de tetas. Detesto as cobranças sociais e os questionamentos quanto a como ou porque faço deste ou daquele jeito que “eu nunca vi antes”, firmando aí aquele controle social do qual é difícil fugir sem fugir das pessoas. Saída pela direita. Livre, sem culpa.

Amo as descobertas dos meus filhos, sorvo vida do brilho dos seus olhos diante de um bicho novo, quase desfaleço de amor depois de ataques de beijos e cócegas e de comer pé de bebê na sobremesa. Adoro ralhar com eles como “toda mãe faz”, aquela trova doida de ficar reclamando a esmo e dando ordens confusas. Beijar e levar pela mão. Salvar do tombo e fazer mágica. Sério, acho sublime curar dores físicas com beijos. Viver tudo isso se exaure a cada momento, o resto é desapego e respeito ao sujeito que o outro é.

Quantas vezes olho nos olhos dos meus filhos e penso. Quem é você, hein? Quem será que mora aí? E quando vejo, já foi. Seguimos descobrindo.

Elis Barbosa

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