Passando Fases

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Simples assim. Não diz isso pra uma mãe. Por mais que seja, não se aplica quando é pele de terceiros. A maternidade te dá tudo, o céu e o inferno. Passeamos por alegrias terrenas e frugais? Há vezes, mas via de regra a coisa é intensa.

Minha maternidade não foi sonhada, desejada ou idealizada, só fui saber que queria ser mãe quando já era, do tipo: deu positivo, agora já era, você está grávida. Ah, tá… nossa, que coisa!!! E fui vivendo todas aquelas mudanças iniciais, quando de repente pensei: Entendi, mas agora preciso pensar se é isso mesmo que eu quero. Oi?! Não querida, a gente não desengravida. A passagem é só de ida, inexorável assim. Paniquei, embasbaquei.

Eu não queria tirar o bebê, eu só não sabia se queria tê-lo, dá pra entender?

Coisas que passam pela cabeça da maioria das gestantes, e derretem ao som das batidas do coração do feto quando a mãe escuta pela primeira vez (ou não). Dizer essas coisas não pega bem, eu sei. A gente aprende que tem obrigação de achar lindo, perfeito, de ficar só feliz, mas não senhoras e senhores, não é assim que acontece, nem antes, nem durante, nem depois. Inclusive, a maternidade não tem depois. Portanto estou desenvolvendo a seguinte teoria: desde o primeiro impacto do resultado positivo a pessoa já começa a viver a maternidade, definida por mim nesse momento como a vivência da máxima ambivalência suportada (ou não) por um sujeito.

Vejam: deu positivo. Pane no sistema. Choque na alma (pra quem planeja como pra quem não planeja), fluxo possível de pensamento: vou ser mãe?! Não. Estou grávida? Nããããããão. Grávida! Grávida. Grávida? Como assim grávida?! Com neném, prenha, embuchada, grávida. Mas eu nunca engravidei antes! Será possível? Eu sou fértil, forte e foda, fiz um neném! Quero ver quem pode!!! Mas agora acabou pra mim! Sou uma deusa!!! Será que esse bebê vai me amar? E agora, quem poderá me ajudar?

Esse momento passa, outros seguem, mas todos na mesma batida. Meu presente, minha filha, tem um ano e meio, é uma criança linda, saudável e acima da média (se é que isso existe!), segundo todo mundo que a conhece e se apaixona, sendo impossível conhecê-la sem apaixonar. Foi parida em casa, chorava só em caso de dor, chegava a intrigar, as pessoas comentavam: “esse bebê não chora?”. Tem doçura na alma, simpatia no sorriso, uma loucura. Meu presente, minha filha, é teimosa como o quê, acha (já?!) de tomar decisões, nem fala direito ainda o sim sem a ajuda da cabeça e sai distribuindo “nãos”, esses pronunciados com capricho e diferentes entonações. Solta da minha mão e corre em direção ao perigo, corre triunfante da mãe que corre atrás dela, ora com um sorriso maroto, ora com um olhar preocupado, dependendo do palavrão que a mãe solta enquanto se descabela espavorida, uma loucura.

Minha filha quer ganhar o mundo sem largar o peito, e cabe a mim dizer, mostrar, praticar e transmitir pra ela o modo das coisas funcionarem por aqui, não se ganha sem se perder. Quero meu bebê pra sempre, mas amo vê-la falando as primeiras palavras, e isso de apropriar-se do verbo é a emancipação máxima da pessoa humana, não é quando o verbo se faz carne que o milagre fica acontecido? Começa lá, no verbo.

Quero ela sempre ao alcance dos meus olhos, mas a creche virou um vício salutar (para ambas), quero minha filha ganhando o mundo empoderada, mas se abrir uma livraria na esquina de casa pra vir tomar café com mamãe todo dia será ideal. E toma ambivalência! Uma loucura. Acaba que me rendi ao clichê mais encardido sobre maternidade: ser mãe é padecer no paraíso. Não faz sentido, não mesmo, mas o sentimento é bem esse.

Pelo menos pra mim tem sido assim…

Elis Barbosa

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