Eu posso fazer melhor que isso. – E pude mesmo.

A segunda e a primeira vez das coisas, dialogam. Não tem como pensar o segundo sem olhar o primeiro. Vivi dois partos, domiciliares. Cada qual num momento distinto da minha trajetória, carregando seu quantum de intensidades. Cada gravidez gestando uma mulher diferente, uma mãe por vir a ser.

A gente já sabia que dificilmente chegaria a quarenta semanas, ele estava pronto e grande e eu, exausta, ansiosa pelo parto, antes de mais nada. Digo isso sem pudor, a maternidade nem estava sendo o foco, o que me interessava mesmo era o parto. Havia o desejo de compensar uma gestação agitada com um parto especial. Planejei esse parto como quem viaja pela segunda vez para o mesmo lugar, querendo surpreender mais que ser surpreendida. Senti uma liberdade enorme de fazer desse acontecimento uma experiência de convivência, uma chance de começo, um trabalho de parto desejado, com tudo que isso implica: medo, concentração, entrega, coragem, paixão, contato, contração, suor, delírios rodando no carrossel da fantasia. Xinguei muito, uivei de dor várias vezes, algumas acompanhada pela lobinha.

Que precioso ver as marcas que nos deixamos mutuamente, minha pequena ali, fazendo as vezes de anestésico e filhote aprendendo sobre a própria história.

Rodeios, disfarces e civilidades são proibitivos para mim em trabalho de parto, acho que pra maioria das mulheres. Essa era minha segunda chance de viver uma entrega feminina tão peculiar como o nascimento de um filho, e não desperdiçaria nenhum tantinho dela.

Organizando a equipe do parto estava Rosana Correia Santos, enfermeira obstetra, parteira, e a mão que me amparou quando precisei de apoio, como se vê na imagem ilustrativa. Seguida, vinha o pai do Joca, empenhado, atento, presente, bem disposto, amoroso. Fizemos uma bela playlist durante o trabalho de parto. Também aliviando todas as dores estava minha supermassagista Clarice, três anos e meio de pura filhotice. Ela esteve presente quase todo o trabalho de parto. Só saiu a pedido (rosnado) meu quando começou o expulsivo. Nessa fase de trabalho de parto era eu na piscina, depois era eu e o pai do bebê, depois éramos nós e a enfermeira, e finalmente minha tia doula-bruxa-materna, astral, minha mãe e minha filha chegaram pra testemunhar a segunda contração que tiraria Joaquim de mim.

Tudo muito recente, lembro bem do alívio de quando ele finalmente, saiu. Não que tenha demorado, foi um parto de nove horas, as três fases pelo preço de duas. Isso assustou, a rapidez com que o trabalho foi desenrolando, e a dor que vinha proporcional à pressa com que Joaquim chegava. Mas vale dizer que ele foi um cavalheiro e mamãe teve zero laceração.

A avó cuidou da neta, a tia cuidou da sobrinha, o pai e a enfermeira cuidaram da mãe e do bebê que nasceu.

Foi um trabalho intenso, desafiador, apaixonado, desejado. Doeu muitíssimo no corpo, fez a alma perder um pouco o sentido. Mas tudo que não era passou a ser, e tudo que era fez chão pras dúvidas se acomodarem e saírem, uma a uma, do anonimato. Parir um filho é parir um universo novo no mundo, e isso muda tudo.

Joaquim nasceu numa sexta-feira, meu dia preferido. Nasceu numa noite bonita, lua cheia, antes das 22h que é pra mãe descansar a noite. Nasceu quietinho, sentido, na água. Mamou desde o primeiro dia e seguimos até hoje, quase três meses depois. Flores, tivemos só as que literalmente colhemos pelos caminhos, mas aqui estamos, cheios de amor e desejo de alegria e prosperidade pros filhos (todos os filhos!).

Elis Barbosa

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